O mistério do cinema nacional, tão bom quanto é invisível
- 31 de mai. de 2024
- 8 min de leitura
Atualizado: 2 de jun. de 2024
Confira nossa entrevista sobre o cinema brasileiro e seus desafios com Fabiana Lima, fundadora do “Cinemafilia”

Angelus Ferreira
Quando falamos em cinema, pensamos em uma manifestação cultural e democrática. Estamos em contato com produções audiovisuais desde crianças, seja na televisão, nas salas de cinema, dentro de um ônibus, ou até mesmo em aviões. A sétima arte permeia a nossa vida como uma das manifestações culturais mais comuns em nossa atual sociedade.
Todos temos um filme favorito, um ator mais apreciado, e um gênero que consumimos com maior frequência. No entanto, se formos indagados qual o nosso filme favorito, quase ninguém diria um filme brasileiro, e indo mais à fundo, se questionados qual o último filme nacional que assistimos, a grande maioria não saberia dizer, ou sequer teria assistido um filme brasileiro de fato.
Obviamente a grande maioria teria na ponta da língua algumas notória produções nacionais, como: Cidade de Deus, Tropa de Elite, O Auto da Compadecida, e para alguns mais antenados, Bacurau.
No entanto, a nossa indústria cinematográfica não é pequena, e tampouco é recente. Somente em 2023 foram lançados cerca de 161 filmes brasileiros, de acordo com dados da Agência Nacional de Cinema (ANCINE), mas a grande maioria de nós não sabe nomear nenhum deles. Há quem argumente que isso acontece porque o povo brasileiro não se interessa por cinema, ou por cultura, mas de acordo com um levantamento da Ancine em 2023, o público total de cinema no brasil foi de cerca de 112,4 milhões, mas desse total, apenas 2,9 milhões saiu de casa para ver um filme nacional.
Todo esse quadro levantou em nós da Cultvando uma certa inquietação, e pensando nisso, fomos conversar com Fabiana Lima, critica de cinema e fundadora do “Cinemafilia” e colunista de entretenimento do “Cinemação”. Por aqui você consegue dar uma conferida em nossa conversa:
Qual a principal diferença que você observa entre o cinema nacional e o internacional? Bom, a diferença principal que eu observo entre o cinema nacional e o cinema internacional está na questão do investimento. Já vi muitos e muitos filmes nacionais e internacionais que têm o mesmo nível de inventividade e de qualidade, de fato, entre eles, mas o que falta mais para a gente aqui no Brasil, realmente, é essa questão do investimento. Essa é a maior diferença, o quanto esses filmes atingem em termos de audiência e como é que é realizado esse investimento, no momento de pré-produção, de produção do filme até o momento de distribuição. Para mim, essa é a principal diferença entre esses dois cinemas.
Mesmo com a desvalorização, filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite e O auto da compadecida, são bastante apreciados por aqui. O que você acha que diferencia esses filmes das demais produções brasileiras que acabam caindo no desconhecimento? Bom, filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite, Auto da Compadecida, Central do Brasil, entre outros filmes dessa retomada do cinema brasileiro, são filmes que têm caráter mais comercial. São filmes que foram feitos de uma forma mais focada em vender mesmo, em mercado, e por conta disso, são filmes que possuem uma grande influência em sua estrutura do cinema estadunidense. Então, a gente tem um cinema policial, como é o caso do Cidade de Deus, ou do próprio Tropa de Elite, que pega emprestado alguns elementos do cinema estadunidense, que, portanto, são reconhecíveis para os brasileiros. Eesse cinema pós-retomada, ele tem muito disso, ele tem muito dessa... É um cinema nacional, não deixa de ser, mas tem essa abordagem mais estadunidense, mais comercial, mais voltada para a vinda, para o mercado.
E, além disso, também são filmes que, eu acredito que chegaram a mais pessoas por conta também do incentivo da televisão. Muitos desses filmes acabaram passando em canal aberto, especialmente na Globo, são filmes que acabaram atingindo esses públicos e se tornando filmes que tiveram uma grande quantidade de pessoas que são fãs, de fato, desse tipo de filme. Então foi o que diferenciou essas produções em específico de outras. E quando a gente vai falar sobre o cinema contemporâneo, pós 2010 e, principalmente, o cinema mais independente, a gente tá falando de um cinema que segue uma estrutura mais de identidade nacional, então, não são filmes que pegam tanto as estruturas mesmo do filme estadunidense. Que é objetivamente mais comercial.
Há um grande estereótipo de que o brasileiro, de modo geral, não se interessa por cinema. Você acredita que essa cultura afeta a apreciação das nossas produções? Esse estereótipo do que o brasileiro não se interessa por cinema, ou não se interessa por cultura, é um estereótipo que eu acredito que, além de ser uma falácia, é algo muito mais profundo do que o simples não se interessa, ou aquilo que as pessoas usam como “ah, é uma questão de mercado”. É uma questão de mercado, por isso que não passam filmes nacionais nos cinemas, porque as pessoas não querem assistir filmes nacionais.
Quando, na realidade, tudo isso, toda essa questão do gosto, é uma ideia construída, não é algo que simplesmente acontece, é algo que vem de um processo de anos de sucateamento da nossa cultura, e que acaba fazendo com que a gente realmente não perceba os nossos filmes como nossos, e sim os filmes estadunidenses, hollywoodianos, principalmente. A gente acaba se desvencilhando e se afastando da nossa identidade e da nossa própria cultura, por conta de todo um processo que aconteceu nos últimos anos de dominação de cinemas estrangeiros dentro da nossa cadeia exibidora brasileira. Então como é que a gente pode não gostar de algo que a gente não tem conhecimento?
No Brasil são produzidos centenas de filmes por ano, e aquilo que chega pra gente são cerca, sei lá, 10 filmes, digamos assim, e olha lá. Porque não chega em todas as capitais, visto que a maioria das capitais hoje em dia estão sendo dominadas pelos multiplex. Quando você vê esse tipo de ideia de que, o brasileiro não gosta e o brasileiro não consome porque não gosta, eu acho que vai muito além disso, realmente é toda uma questão de educação, principalmente. De você educar o povo mesmo pra perceber esse cinema, pra ter uma noção daquilo que está sendo feito, porque o que a gente faz, o que a gente tem, na verdade, é uma grande ignorância, um grande desconhecimento sobre aquilo que é produzido no Brasil e a partir disso o mercado internacional se aproveita dessa lacuna que é um problema nosso para inserir os seus próprios produtos.
Eu acho que é isso que acaba acontecendo, eu acho que esse estereótipo, ele existe, existem muitas pessoas que reforçam que o cinema brasileiro é só violência, que o cinema brasileiro é só sexo, é só isso, é só aquilo, mas não tem conhecimento de filmes que são feitos de todos os gêneros cinematográficos aqui no Brasil, mas que não alcançam sequer o cinema porque não tem espaço. É uma questão de ignorância mesmo. E eu falo ignorância na falta de conhecimento que existe por parte do brasileiro e por falta de incentivo também por parte do Estado.
É possível que o problema esteja nas produções nacionais, que não possuem boa representação e não sabem se vender? Eu não acho que seja um problema das produções nacionais que não possuem boa representação ou que não sabem se vender. Eu acho que já é muito difícil fazer cinema no Brasil. Já é algo que é muito cheio de questões e muito cheio de tá tudo contra você. Então, além desses estereótipos que ninguém vai assistir o seu filme, de que seu filme vai ficar limitado, de que você não vai conseguir exibir o seu filme. Você também tem problemas no momento de financiar o seu filme, porque as pessoas não querem financiar. Eu não acho que esteja nisso.
Tem muitas produções nacionais com ótima representação. Recentemente eu posso citar o filme Cabeça de Nego do Déo Cardoso, que foi um filme cearense eleito o melhor filme pela Abra. Acredito que no ano retrasado tem o Marte um, do Gabriel Martins, que para mim é uma ótima representação também do brasileiro, da nossa política, de tudo o que aconteceu nos últimos anos. São filmes que conversam muito com a gente e conversam muito com a nossa realidade e que, digo por mim, é impossível não se emocionar assistindo e não se identificar de certo em certo nível. Então, não acho que o problema esteja nessa questão de representação ou na qualidade das obras, porque essas obras, por exemplo, que eu falei, Mato seco em chamas (Adirley Queirós, Joana Pimenta), são obras que eu acredito que são incríveis. E não só eu acredito, como quando chegou para as pessoas fora do Brasil, elas foram valorizadas também.
Então não é uma questão de falta de qualidade, e não saber se vender de fato. É porque a gente não tem esse espaço. Esse espaço não é dado. Como eu falei na resposta anterior, esse espaço é dificultado no Brasil, então é muito difícil competir quando não há investimento. E aqui, juntando a primeira pergunta, quando não é investido no cinema nacional, como é investido no cinema e no mercado internacional, como é que a gente vai competir? É como se realmente você estivesse competindo com gigantes. Você já sai de um ponto de partida que é desigual.
A falta de incentivo governamental para as produções brasileiras é um fator crucial nesse quesito, na sua opinião? É algo que é crucial e além de investimento, além de incentivo, o que eu falo realmente de orçamento, falta também uma lei que obrigue as redes multiplex que atuam no Brasil, mesmo sendo internacionais, a exibirem esses filmes nacionais, dedicarem pelo menos um percentual das suas salas para exibição dos filmes nacionais e que sejam exibidos inclusive em horários que as pessoas possam assistir, porque o que eles fazem é exibir filmes nacionais, mas exibir as 13h00, que é o momento em que está todo mundo trabalhando e depois eles ficam falando que não tem demanda o filme nacional.
Acho que além de incentivo governamental, falta essa questão legislativa, de se fazer uma lei que fale “Isso aqui vai começar a acontecer”, porque não é algo que acontece assim de uma hora para outra, da noite para o dia. Vários países ao redor do mundo, e eu posso citar como exemplo, a Coreia do Sul, que fortaleceu o seu cinema a partir dos anos 90, que está hoje, quase 30 anos depois, colhendo os frutos daquilo que foi feito na década de 90. Então não é algo que vai acontecer de uma hora para outra, é algo que vai acontecer à medida que você vai inserindo esses filmes dentro do dia a dia, dentro da vida cultural das pessoas, dos brasileiros.
O mundo sabe valorizar as produções brasileiras, como foi visível com Bacurau, porque então você acha que esses filmes não chegam na população geral brasileira? O mundo realmente sabe valorizar as produções nacionais. Eu estive em Cannes semana passada e tivemos cinco filmes brasileiros dentro das seleções de Cannes no geral. A gente tinha um representante brasileiro em praticamente cada mostra dentro de Cannes, que é um enorme festival. O nosso cinema já tem mais de 100 anos, é bem desenvolvido e bem estruturado em relação aos seus temas, em relação a sua identidade e tudo mais que está sempre em reinvenção. A gente tem uma identidade nacional. O nosso cinema, que é reconhecido mundialmente.
Isso é valorizado sim, infelizmente pelas pessoas que estão fora no Brasil. Mas eu acho que esses filmes não chegam na população brasileira justamente pela questão que eu acabei de falar. São filmes que infelizmente não vão chegar nos cinemas ou quando chegam nos cinemas, chegam com pouco apelo, porque não são filmes muito divulgados. Até para divulgar um filme você precisa de dinheiro, porque fazer uma campanha é muito caro. Você precisa ter esse dinheiro para fazer isso, para divulgar esse filme, para divulgar material, para fazer essas questões de imprensa, ou seja, ir nas cidades, fazer eventos de inauguração, de première, tudo isso custa dinheiro e tudo isso custa dinheiro para uma assessoria específica, para a produção.
Falta esse dinheiro. Para que esses filmes cheguem à população brasileira no geral, eles precisam estar nos cinemas. Eles precisam estar em algum lugar. Eles precisam estar disponíveis para as pessoas assistirem. Porque não adianta você falar que existe um filme nacional X que o filme nacional X estreou em tal lugar. Se esse filme não chega aqui, não chega para todo mundo e chega para só Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, você esquece todas as outras cidades do Brasil que não possuem cinemas independentes, que possuem cinemas de rede, que vão estar passando toda a semana todos os mesmos filmes que vêm dos Estados Unidos ou que vêm de outros lugares, mas principalmente dos Estados Unidos.




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