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Garota, Interrompida aborda todas as complexidades do que é ser mulher nos anos 60 — e atualmente

  • 15 de mai. de 2024
  • 3 min de leitura

Atualizado: 17 de mai. de 2024


Poster do filme Garota, Interrompida em que Winona Ryder e Angelina Jolie, ambas mulheres brancas, se sobressaem na arte.
Girl, Interrupted é um drama biográfico estadunidense de 1999 (Foto: Columbia Pictures)

Emanuele Bizzo


Se na década da geração Z, que grita por diversidade e igualdade de gênero, mulheres têm seus sentimentos invalidados, nos anos 60 era ainda pior.  Em 1967, em meio ao cenário de guerra entre os Estados Unidos e o Vietnã, a insegurança em relação ao futuro e o sentimento de não se encaixar nos padrões impostos pela sociedade foram responsáveis por trancar Susanna Kaysen, de apenas 18 anos, em um hospital psiquiátrico por 18 meses. 


Vinte e seis anos depois, em 1993, Susanna iria expor suas maiores vulnerabilidades e traumas através de um livro de memórias intitulado Garota, Interrompida. O relato então se transformaria em um filme de mesmo nome sete anos mais tarde, sendo estrelado por grandes estrelas de Hollywood como Winona Ryder, Brittany Murphy e Angelina Jolie – cuja performance a garantiu um Oscar de melhor atriz coadjuvante. 


Filme amplia sofrimento de modo intensamente cativante


O longa, no entanto, dramatiza e glamouriza aspectos da vida de Susanna de uma forma não muito verossímil, exceto pelo descontentamento que a jovem sentia ao perceber que, enquanto seus amigos experienciavam a vida universitária, ela conhecia os limites de sua própria psique. 


A adolescente foi levada por seus próprios pais para um hospital de alto padrão chamado McLean, localizado em Belmont, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. Com o pretexto de que a filha tinha ideações suicidas, a família precisava se livrar de Susanna para não causar desconforto no círculo social em que viviam. 


Para além da história narrada no livro de Kaysen, o filme demonstra de forma fascinante o contraste entre momentos de tragédia e alegria, monotonia e intensidade, vividos pelas pacientes no hospital psiquiátrico: “A loucura não é estar despedaçada ou engolir um segredo obscuro. É você ou eu ampliados”, afirma a jovem ao se auto-avaliar, como uma garota que teve, de fato, sua vida interrompida. 


Elenco retrata todas as características peculiares de cada paciente


O enredo se apodera da sensualidade de Angelina Jolie e da fragilidade performada por Winona Ryder para criar duas personagens que vão de enemies to lovers, ou melhor dizendo: de rivais a amigas. Jolie interpreta Lisa Rowe – diagnosticada com Transtorno de Personalidade Antissocial, ou sociopatia, como era chamado na época –  enquanto Ryder interpreta a própria Susanna. 


Em um primeiro momento, é nítido para o público o quanto a protagonista se sente atraída pela irreverência de Lisa, algo que se perde quando ela constata a apatia da amiga perante ao sofrimento alheio: “Os olhos de Lisa uma vez tão magnéticos, agora aparentam estar apenas vazios”.


Além do papel fundamental do antagonismo de Jolie como Lisa, a instituição psiquiátrica também é palco para as outras amizades femininas, o que resulta, para Susanna, em uma maior compreensão acerca de todas as nuances da mente humana. Outra personagem de destaque, Daisy, interpretada por Brittany Murphy, possui traumas de abuso sexual e por isso desenvolveu transtornos alimentares; Polly e Georgina sofrem de esquizofrenia. 


No geral, as personagens que convivem com Kaysen e participam da construção de seu caráter são inúmeras, e estão ali por diversos motivos, seja por realmente precisarem de ajuda médica, ou simplesmente por não serem aceitas em sociedade; como é o caso de Cynthia, internada por ser lésbica. 


Desse modo, Susanna, a princípio, sente-se seduzida pelos pensamentos e atitudes das colegas de quarto, mas não demora para perceber o quanto elas são prejudiciais para si mesmas e para os outros.


Sanidade mental da protagonista é questionada em vão


O mais intrigante e, até mesmo decepcionante, é saber que Susanna era uma adolescente saudável. Seu diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline não era verídico, mas sim apenas uma forma de rotular uma mulher que batia de frente com os costumes conservadores da época. Susanna tinha sua vida sexual e sua melancolia julgadas de modo que um homem jamais teria. Era por isso que ela estava ali, e permaneceria por pouco mais de um ano. 


Obra representa sentimentos que ultrapassam gerações


Mesmo após 24 anos do lançamento do filme, ainda é possível que muitos se identifiquem com a fragilidade emocional de Kaysen. Grande parte desse público, não à toa, são outras mulheres, que de certa forma sentem que também tiveram parte de suas vidas interrompidas por uma sociedade adoecida.


Afinal, já na Grécia Antiga, a histeria – palavra que advém do grego e significa útero – era usada como forma de patologizar mulheres por emoções e comportamentos não compreendidos pelos homens. Assim, ao longo dos séculos, confinar mulheres (ou qualquer outro indivíduo considerado indesejável na sociedade) tornou-se uma prática comum, suprimindo seus sentimentos com medicações e privando-lhes do direito à liberdade. Três décadas depois, a luta antimanicomial ainda persiste. 


É por isso que Garota, Interrompida é mais que um simples livro adaptado para o cinema, é a confissão de uma jovem que sucumbiu às estruturas de poder e descobriu que qualquer pessoa pode carregar consigo um pouco da loucura, basta querer entender a própria realidade.


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