top of page

50 anos de A Tábua de Esmeralda (1974)

  • 2 de mai. de 2024
  • 3 min de leitura

Capa do disco A Tábua de Esmeralda. Na arte de capa, figuras sacras são interpoladas em meio a um grafismo exótico.
A Tábua de Esmeralda é o décimo primeiro álbum de estúdio do cantor brasileiro Jorge Ben (Foto: Phillips Records)

Ian Guimarães Teixeira


Levei o Gilberto Gil na casa do Nicolas Flamel. E, por incrível que pareça, o Gil viu uma coisa lá que eu vi, só nós dois vimos”; “Depois eu perguntei: ‘Gil, você viu uma coisa que eu vi?’. Ele falou: ‘Eu vi, você viu?’. Foi incrível.” Relembra Jorge Ben em entrevista para a Trip em 2009. O alquimista francês moldou para sempre o imaginário do icônico músico carioca, e apesar de Jorge dizer que nunca transformou metal a ouro como o seu muso, a sua transmutação da música brasileira em A Tábua de Esmeralda, de 1974, continua impressionando quem ouve. Quase sobrenatural o que Ben Jor realiza em 12 faixas contidas em apenas 38 minutos e nove segundos, que se sente como uma vida inteira criada e contada pelo carioca. Fazem 50 anos do maior álbum da história da música brasileira, e quiçá, mundial.


A musicalidade de Jorge sofre uma mudança intensa com a virada da década de 1960 para 70. O compositor que ficou marcado em seu primeiro trabalho por sambas suaves, como: Chove Chuva; Balança Pema; Por Causa de Você, Menina e Mas, Que Nada!, chega em Força Bruta de 1970 junto do Trio Mocotó adotando muito de outros gêneros nacionais, como a moda de viola, que parecem de fato oferecerem um Samba Esquema Novo que o carioca ofertava no título de seu primeiro projeto de 1963. 


Três anos depois de seu álbum com o trio paulista, a banda Pink Floyd entregava ao mundo uma das mais célebres e memoráveis obras da história da música, com The Dark Side of the Moon. Ao mesmo tempo, o que se embrionava em terras tupiniquins não era a psicodelia britânica de Roger Waters e David Gilmour, mas sim algo completamente novo, uma viagem incomparável a qualquer sintético disponível, um álbum vivo, que continua reverberando desde 1974 até a eternidade.


A forma com que se abre o trabalho em Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas: uma saudação de início, e depois uma breve discussão no estúdio de gravação, que de forma alguma foi feita a tentativa de cortar este momento. Tinha ali a sua importância, e para o ouvinte, é a de possibilitar um contato quase tátil com a produção do que se ouve ali, aproxima de forma que até na condução mais lotada e apertada é possível fechar o olho e se imaginar ali, ao mesmo momento que fora gravada a faixa.


A forma com que Jorge canta em muitas das faixas também vai de completo oposto em como começou sua carreira, caracterizado por sua voz tranquila, o quase desespero passado pela entonação do carioca em momentos como: Menina Mulher da Pele Preta; Magnólia e Cinco Minutos (5 Minutos) dão um dinamismo incomparável sobre a intensidade emocional que Ben Jor tenta transmitir. Exagerado? Talvez, mas é por meio dele que se transforma em genuíno tudo relatado no álbum. E por muitas vezes, fazem sentido até do que parece faltar. É impressionante que a obra mais carregada de simbolismo do carioca também seja sua mais popular até hoje.


A Tábua de Esmeralda é um último projeto de Jorge que tem o violão como seu principal e central companheiro, muito por decorrência da mudança dos métodos de gravação: "O sensor de violão que a gente usava não existe mais. Hoje, o som sai limpo, sem aquela respiração.” conta o compositor, que denomina o fim de uma dinâmica que parecia enfeitiçar, como se o dedilhado de Ben Jor comandasse orquestras, violas e afins junto de suas músicas.


Dentre as faixas temos a passagem pelo o ocultismo, o romantismo, uma mistura de ambos em alguns momentos, até chegarmos em Zumbi, onde o carioca retoma a memória de um dos grandes líderes de resistência, em essência negra, da história do Brasil, no período do auge da Ditadura Militar. Eu Vou Torcer, carrega os votos de paz de Jorge, em faixa que mantém-se atual pela sinceridade e simplicidade nos pedidos de um fim a opressão e o retorno do amor no plano central da sociedade.


Por fim, é difícil atestar um só fato no que mantém a obra de Jorge tão vívida e atual em todas suas características, talvez o carioca, apesar de sempre negar, seja mesmo um alquimista vivo, que nos abençoou com sua grande obra, há décadas marcando qualquer um que se atenta ao dedilhado dos dedos e o canto cantado de Ben Jor, e é talvez naquele primeiro diálogo da intro do álbum que encontramos a resposta a este questionamento: “Tem que dançar, dançando!” e bem provavelmente o que continuamente a 50 anos A Tábua de Esmeralda nos lembra é que se tem que viver, vivendo!




Comentários


grupocultvando@gmail.com

FAAC - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação - Câmpus de Bauru - Unesp

Av. Eng. Luís Edmundo Carrijo Coube, 14-01 - Vargem Limpa, Bauru - SP, 17033-360

@grupocultivando

  • Instagram
  • YouTube
  • TikTok

©2024 por CULTvando. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page